NUNCAEXAUSTO

Dezembro 11 2011

A VERMELHO

 

 

 

 

 

Depois de umas dezenas de textos que fui escrevendo, com o objectivo único de, tal como sempre afirmei, desabafar, resolvi interromper a prática, então já rotineira, por ter o sentimento de que, falar só, está longe de ser saudável. Fiz bem. Mas podemos sempre ter uma “recaída”: é o caso.

 

O mundo anda, há mais de três anos, a tentar fazer a gestão de uma crise profunda, de contornos ainda não completamente definidos e, se possível, a ensaiar a melhor forma de dela sair, num quadro em que as circunstâncias permitam, impedindo, assim, as trágicas consequências do seu prolongamento, da sua indefinição, do seu alcance, da sua duração e da sua intensidade.

 

Não interessa agora, – não me interessa agora –, voltar ao que todos sabemos: como começou, quem a precipitou, os comentários que suscitou, as decisões que, em consequência, postulou, – “É urgente mudar de paradigma” –, as energias que, parecia, entretanto, tinham sido estimuladas, a lucidez reinventada, a coragem reassumida e a vontade de contrariar o pré-escrito futuro.

 

Enrodilhados numa mais que discutível lógica de poder – de poderes – e de interesses, em que avulta o dos “mercados” e dos seus cúmplices – sim, todos aqueles que tudo fazem para que sejam eles, os mercados, os únicos a não perderem nada com as dificuldades instaladas cujos contornos eles próprios definiram – tornamo-nos incapazes de perceber o que, verdadeiramente, compete a cada um. Os discursos são todos semelhantes, as receitas são todas parecidas, todos fogem da incomodidade da análise política e ideológica sobre a situação a que chegamos, todos veneram os “mercados” e as suas extravagantes exigências, todos se renderam, ou parece, ao peso de quem (ainda) manda e, por isso, decide em nome, e a favor, dos interesses privados e não, como era desejável, dos que encontram a sua legitimidade nas pessoas, nas suas necessidades, nos seus anseios, nas suas aspirações e na sua eterna esperança num melhor, e mais promissor, futuro.

A direita e a esquerda confundem-se. A primeira, protagonista quase exclusiva destes tempos de incerteza e temor, alojou-se no silêncio da segunda, e a segunda, com clara dificuldade de afirmação, deixa, à primeira, o caminho aberto à livre expressão do seu mais desenfreado neo-liberalismo económico e da sua recatada, e hipócrita, postura cúmplice na destruição de tudo aquilo que a civilização, a modernidade, a seriedade e um são entendimento das sociedade modernas, havia construído para as pessoas, em seu nome e em nome dum devir, que todos esperam, seja o da paz, do desenvolvimento, da justiça, da liberdade e da democracia.

 

O silêncio da esquerda, na sua dimensão mais europeia e internacional, não existe. Perdeu-se nos seus combates domésticos. A Internacional Socialista não tem opinião sobre a crise internacional? Sobre a globalização e as suas consequências? Sobre as “revoluções democráticas” no mundo árabe e no Mediterrâneo? Sobre os inúmeros conflitos regionais de consequências, potenciais, graves? Sobre as dívidas soberanas e a, chamada, crise do euro? – Parece que não. Que não tem. E, se tem… não se ouve. E é pena!

 

 E o Partido Socialista Europeu? Que é feito dele? – No coração do “drama” preocupa-se com quê? Com os eurocráticos dossiers que tem em mãos?  São decisivos para a solução dos complexos problemas com que nos confrontamos? Não há uma ideia de conjunto? Um quadro de reflexão desta área de pensamento? Um conjunto de ideias alternativo?

 

Bom. De acordo com as sondagens, em 2012 o PSF pode ganhar as eleições em França e o SPD pode ganhar as eleições na Alemanha. A esquerda pode, assim, regressar ao poder nos dois mais importantes, e economicamente mais representativos, países da União Europeia.

 

Será que, ainda que seja em tempo útil que tal aconteça, poderemos alimentar a esperança de que algo seja diferente no próximo futuro? – Temo que não! E nós merecíamos mais da esquerda democrática e do que ela representa para várias gerações de europeus.

 

 

Funchal, 11 de Dezembro de 2011

 

Mota Torres

publicado por nuncaexausto às 16:34

Junho 12 2011

 

 

A candidatura de Francisco Assis a Secretário-geral do Partido Socialista está longe de ser uma tarefa a que se possa corresponder com a sensação de se tratar de um fácil desafio, de não menos fácil superação.  Tenho para mim, no entanto, que Francisco Assis, conhecendo as dificuldades da decisão tomada, está particularmente bem equipado para as ultrapassar e poder, com sucesso, consolidar a confiança que os socialistas nele depositam criando, com todos, os alicerces indispensáveis ao reforço da credibilidade do PS, patamar decisivo no árduo trabalho que, em conjunto, teremos de enfrentar nos próximos quatro (?) anos de oposição, e  que correspondem, como é sabido,  a um período que os portugueses vão sentir de forma particularmente intensa por força das dificuldades orçamentais e económicas com que o País está confrontado.

 

Francisco Assis – o País já percebeu – é um homem combativo, de convicções e corajoso, mas imbuído daquele espírito de tolerância, capacidade de diálogo e sã teimosia que caracterizam os socialistas e os que acreditam numa sociedade permanentemente  revigorada, interventiva, civicamente exigente, persistente e sem hesitações face ao que o futuro, já hoje, lhe reivindica. Francisco Assis começou cedo a mostrar do que era capaz. Mais do que isso, começou desde cedo a afirmar que o País - o seu País, o nosso País - o preocupava e que queria ser, de forma determinada, parte activa e empenhada em tudo o que pudesse contribuir para o melhorar, enriquecer, sustentar e crescer, económica e socialmente, colocando Portugal como referência de modernidade, civilização,  bem-estar e progresso. Fê-lo sempre de forma inteligente, lúcida e solidária.  Os cidadãos, e os socialistas em particular,  conhecem-lhe a lealdade austera e a seriedade intransponível. Sabemos todos que ele fez, faz e fará parte do Portugal em que queremos viver, seja qual for a função que desempenhe, o cargo que exerça ou as responsabilidades de que, democraticamente, esteja incumbido. Temos a certeza de que Francisco Assis será, sempre, capaz da democracia e do que a democracia postula.

 

Francisco Assis é mais, porém. Surge aos nossos olhos como sendo alguém que, serenamente, sabe de que é que o Partido Socialista carece neste momento: unidade e disciplina programática e estratégica.

Afigura-se-me ser, também,  Francisco Assis, um homem motivado para o debate ideológico e para a sua imprescindibilidade no quadro da acção da esquerda democrática em Portugal, mas também na Europa.

A debilidade eleitoral - e porventura do pensamento -  da esquerda europeia pode justificar, em parte, a debilidade da União Europeia, a crise da coesão, a solidariedade hesitante, o reforço dos egoísmos nacionais, o ressurgimento dos nacionalismos, a "popularidade" de movimentos xenófobos e racistas, o reforço do eurocepticismo, a desconfiança face à moeda única e o cambaleante projecto europeu a que urge por cobro. A esquerda tem, mais uma vez, a missão histórica de reconduzir - contribuir para - a Europa ao caminho (e ao projecto) que a torna sedutora, atractiva, aliciante, promissora, popular e defensável. Uma obrigação a que o PS não pode estar alheio, interna e externamente, no quadro do seu estatuto de membro do PSE e da IS e do seu prestígio nessas instituições.

 

Mas, sobretudo, Francisco Assis sabe de que é que o País precisa no futuro e, por isso, sabe qual a postura a adoptar no

presente; o que se espera de um Partido, o PS, que vai ser oposição, mas que se quer assumir com  responsabilidade e sentido de Estado - ao contrário de outros - e consciente das suas obrigações para com as instituições nacionais, internacionais e para com os portugueses; o que é compromisso, responsabilidade e partilha, mas também o que é autonomia de acção, programa próprio, exigência, afirmação e diferença; o que une e o que distingue, em suma, o que permitirá, quando as circunstâncias o impuserem, que os nossos concidadãos tenham consciência do esforço feito na superação da crise, mas identifiquem os sinais distintivos que transformam o PS numa opção/solução de futuro, em nome dos grandes valores que orgulhosamente e de há muito defendemos. Por todas estas razões, Francisco Assis é um excelente candidato. Por todas estas razões, Francisco Assis é um candidato de excelência!

 

publicado por nuncaexausto às 14:26

Agosto 03 2010

 

 

 

 

 A VERDE

 

 

 

Por João César das Neves – 26 de Fev. 2010

 

 

O Prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.

Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»

O problema central está na família e na escola.

«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma:

«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.»

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.

«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»

 

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.

Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.

Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandela é bom, mas nem desconfiam porquê.

Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.

A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.

Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.

Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.

O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.»

 

NOTA IMPORTANTE: O texto acima, que, pela sua importância, actualidade e acuidade, nuncaexausto, com a devida vénia, publica, é da autoria de João César das Neves. 

 

 

 

publicado por nuncaexausto às 12:49

Julho 22 2010

A AMARELO 

 

 

 

 

 

O PSD resolveu desencadear um processo de revisão constitucional aproveitando o facto de a Assembleia da República ter recuperado poderes constituintes.

 

Será a 7ª. revisão em 36 anos de democracia.

 

Ocorrerá, inevitavelmente, dado que, a partir do momento em que aquele partido fizer o depósito do seu projecto na Mesa da Assembleia da República, todos os outros grupos parlamentares terão  30 dias para apresentarem os seus.

 

A Constituição revista, será o que 2/3 dos deputados em efectividade de funções quiserem que seja. Nem mais, nem menos.

 

Em tão pouco tempo, desde o início da publicitação do texto proposta do maior partido da oposição, já tudo foi dito sobre o que se conhece da sua substância, da sua oportunidade, da sua racionalidade, da sua necessidade, e da sua justificação, aparecendo, um pouco por todo o lado – de resto, como por este – especialistas em Direito Constitucional que sentenciam o elogio, a denúncia, a suspeita, o horror. No fundo, é esta a síntese de 35 anos de vida da Constituição da República que o 25 de Abril permitiu.

 

Mais do que a Lei fundamental, a Constituição tem sido argumento, pretexto, desculpa, recurso, refúgio, manobra e suporte para estratégias partidárias – quem se não lembra, por exemplo, de tudo o que, sobre ela, a Constituição, tem sido dito pelo presidente do governo regional da Madeira? – que a vulgarizam e menorizam aos olhos da opinião pública.

 

Sem conhecer o texto em pormenor, sou, naturalmente, contra tudo aquilo que já é do conhecimento geral sobre o projecto do PSD.

 

E não é por ser “do contra”, como se diz, mas porque me preocupa a possibilidade de que se ponha em causa a dignidade do texto constitucional, o prestígio de que deve gozar a Lei das Leis, a importância do seu papel político, a relevância da sua função harmonizadora da vida nacional, a inspiração superior para a criação de condições propiciadoras de uma vida mais justa, mais equilibrada, mais solidária e mais auspiciosa para todos os portugueses.

 

 

 

Subscrevo, por isso, sem dificuldade, a posição do Partido Socialista, ontem tornada pública durante a reunião do seu Secretariado Nacional. Apesar de militante, nuncaexausto, não é incondicional e, ao longo de 35 anos, não se esquivou a uma postura crítica sempre que a sua consciência assim o determinou. Este é o momento de afirmar, convictamente, que o PS tem razão; mais, o PS é fundamental, decisivo, para evitar a malfeitoria e para salvar a Constituição no que ela tem de essencial. Estou com o PS, e espero do PS, a atitude que se impõe de levar às últimas consequências a defesa da Constituição das teias do liberalismo e da desumanidade, traduzível, no essencial, pela defesa de tudo em que acreditamos e que queremos preservar.

 

O que o PS, sem o qual não há revisão constitucional, ainda não disse, alto e bom som, e, tenho a certeza, tem de dizer, tem de garantir, tem de, tranquilamente esclarecer, é que “O PS não permitirá, em circunstância nenhuma, que esta iniciativa do PSD contra Portugal, contra os portugueses e contra as suas, mais do que legítimas, expectativas, possa vingar, atropelando a esperança de todos nós num futuro sempre mais justo e progressivamente mais fraterno. Mais uma vez, o PS estará onde deve estar: ao lado dos portugueses!”. É isto, mais coisa, menos coisa, que esperamos da responsabilidade, da frontalidade e do espírito de serviço.

publicado por nuncaexausto às 11:14

Julho 18 2010

 

 

 

Para aqueles que visitam o “nuncaexausto”, os mais modernos de entre eles, e que, vá-se lá saber porquê, concordam, aplaudem, regozijam e acreditam, nesta como noutras matérias, tratar-se, o acordo ortográfico, de um significativo e marcante acto civilizacional, quero esclarecer que resolvi, de há muito tempo a esta parte, não o adoptar e, portanto, passar a escrever com erros desde a sua entrada em vigor.

 

O meu objectivo com este aviso é, simplesmente, evitar que os que têm a gentileza de por aqui passarem uma vista de olhos, se não sentirem defraudados com esta total ausência de erudição e conformidade com o “luso-brasileiro”.

 

Muito obrigado.

 

publicado por nuncaexausto às 14:15

Julho 18 2010

 A VERDE

 

 

 

Num programa informativo da televisão, no serão do passado dia 13, o insuspeito Francisco Sarsfield Cabral referiu-se três vezes a Mário Soares como exemplo de idoneidade cívica e política, de coragem, de liderança, de determinação, de lucidez e de sentido do interesse nacional.

 

Entendi não dever deixar passar em claro este facto por se tratar de um sublinhado vivo sobre as características pessoais de Mário Soares, que todos conhecem e que a esmagadora maioria dos portugueses aplaude, pela necessidade que sinto existir de que, à política, seja devolvida a verdade, a vontade e a clarividência de que o País precisa para enfrentar os momentos difíceis que atravessa e cuja duração e gravidade não é ainda, e porventura não será nunca, inteiramente identificável.

 

Mário Soares, como cada vez mais personalidades da vida nacional, advoga a urgência de uma interpretação autêntica da situação política, económica e social do País e a criação de condições para que, com estabilidade, com serenidade e com sentido de responsabilidade, seja possível recolocar Portugal no caminho do progresso, do desenvolvimento e da justiça social. Essas condições só serão cumpridas se o parlamento, na sua riqueza plural e na sua diversidade, encontrar a fórmula que permita juntar esforços, privilegiar o essencial, definir a meta e encetar o trabalho rumo ao futuro que, todos esperamos, seja mais próspero e auspicioso. 

 

 

A 25 de Maio, num post aqui deixado por nuncaexausto, dizia-se: “à laia de conclusão, combatendo a demagogia, a intriga, a insídia e a suspeita vil e constante, penso, e quero dizê-lo aqui e agora, que o País precisa, urgentemente, de um governo de maioria – que, nas actuais circunstâncias, só pode resultar de um acordo parlamentar de incidência governamental, entre o PS e o PSD – posto o que, com base num programa comum de emergência e de austeridade, num discurso à Nação, o PM, com sobriedade, clareza e rigor, dissesse aos portugueses qual a verdadeira situação do País e o que se impunha fazer para a combater. Tenho a certeza de que os portugueses entenderiam, Portugal beneficiaria e de que o PS chegava ao fim da legislatura com um novo ânimo, refrescado e preparado para o futuro”. Parecia-me realmente, também a mim, que, face ao dramatismo dos discursos, ao negro diagnóstico da situação existente, à acidez crítica dos que estão contra, a uma pretensa leviandade dos que estão a favor, às dificuldades colocadas pelos calendários eleitorais que a Constituição postula, aos inultrapassáveis compromissos europeus, às exigências internacionais e à pertinente reivindicação dos portugueses, que a solução séria, bem intencionada, patriótica, assentaria na criação de um quadro de estabilidade parlamentar propício à concentração de esforços na resolução dos problemas com que o País está confrontado e em que todos, mas todos sem excepção, por acção, negligencia, diletantismo ou irreflexão, têm a sua quota-parte de responsabilidade.

 

Acreditava eu, nuncaexausto, que o novo líder do PSD, com alguma frescura, uma postura mais arejada e uma predisposição política para o diálogo e a concertação – em contraste manifesto com a postura da sua antecessora – traria ao debate novas perspectivas, renovadas expectativas e promissoras disponibilidades e vontades. A reforçar este entendimento, compreendi como sinal de lucidez e coragem a celebração de um acordo bipartido (PS e PSD) a propósito da aprovação do incontornável PEC e, quis perceber nesse gesto, o sedutor “piropo” que abriria portas a maiores, mais amplas e mais complexas decisões envolvendo os dois maiores partidos nacionais – e até outros – tendo Portugal como motivo e os portugueses como farol.

 

Completamente desencantado, é como me sinto hoje em face de tudo o que tem vindo a dizer e a fazer PPC (Pedro Passos Coelho). Não há traição; há queixinhas.

 

Faz acordos com o governo para, logo a seguir, “pedir desculpa” aos portugueses de os ter feito; apoia medidas gravosas, mas necessárias, tomadas pelo governo para, logo a seguir, como os pequenos na escola quando apanhados a fazer asneiras, denunciar: “foi aquele menino”; empurrado pelos sectores mais neoliberais do seu partido, e não só, elenca propostas tendentes à destruição do estado social, dizendo, de forma enfática que, estas sim, são a solução para a perenidade de Portugal enquanto País socialmente justo; rasga os telejornais com uma total ausência de ideias, de que ele próprio tem consciência, e acaba a refugiar-se naquela velha muleta do nosso regime constitucional que é, sem mais, a revisão da Lei Fundamental, tema a que todos recorrem, atribuindo-lhe a dramática causa dos nossos males, quando, por falta de ideias, de propostas e de estratégia, se vêm confrontados com o vazio que eles próprios criaram; embalado pelas sondagens, avança, corajoso, para as ameaças – responsabilidade? Gravidade da situação de Portugal? Desemprego? Défice? Dívida? – nomeadamente a de poder vir a inviabilizar o OE para 2011 e, com esse gesto, desencadear um indesejável crise política que é, e será, a última das últimas coisas de que Portugal e os portugueses precisam; face a esta possibilidade, antecipa, a culpa será do governo, de José Sócrates, e é assim que o próximo Presidente da República, seja lá ele quem for, deve entender, porque é essa a vontade de Pedro Passos Coelho. Magister dixit!

 

Não. Não. O maior partido da oposição merecia melhor. O País merecia um melhor PSD e a situação de Portugal exigia que, à frente desse partido, estivesse um homem de Estado e não, como parece ser o caso, alguém que vive, exasperado, a necessidade imperiosa de transportar ao poder os seus militantes, os seus quadros, os seus “generais”. O poder cega. Do maior partido da oposição reivindica-se prudência, critério e lucidez.

 

Como em outras ocasiões, com Mário Soares, Mota Pinto, Sá Carneiro e outros, Portugal precisa de estadistas. Homens de Estado. A sua ausência debilita a democracia e transforma-a num perigoso e radical e perverso exercício da política que, queremos todos, continue a ser feita em liberdade e pela liberdade!

publicado por nuncaexausto às 12:19

Junho 28 2010

A AMARELO 

 

 

 

 

O maior problema que a Europa tem pela frente, não é encontrar solução para as dificuldades económicas, financeiras e orçamentais com que se debatem os seus estados-membros; o maior desafio da Europa, da União Europeia, é ser capaz de decidir o que quer ser no futuro e como pretende concretizá-lo.

 

Vem isto a propósito das afirmações de auto-satisfação de Durão Barroso, segundo as quais, no G20, ninguém – os outros participantes – levantou objecções ao modo como a UE está a tentar induzir a correcção dos défices orçamentais dos países integrantes, assumindo-se, eles também, como precisando de exercícios semelhantes no cumprimento de metas equivalentes.

 

Devolver o prestígio ao euro, criar condições para o crescimento económico e acalmar o fogo especulativo das agências de notação financeira, é necessário, é urgente, é imprescindível. Não se ultrapassam, nem se corrigem, porém, as razões que determinaram este estado de coisas, nem se potencia a reflexão sobre o que vai ser decisivo para a União Europeia, para a sua continuidade e para as suas hipóteses de sucesso no caminho que resolveu trilhar de desenvolvimento, de unidade, de afirmação política e de solidariedade.

 

O mundo, construído na defesa, sempre e em todas as circunstancias, da economia ao serviço das pessoas no quadro de uma correcta justiça redistributiva, espera, para a sua viabilidade, de uma União Europeia que se orgulhe da sua História, que saiba o que quer, que fale a uma só voz, que interprete fielmente os valores dos seus cidadãos e que respeite a sua vontade e as suas aspirações mais sentidas, que reconheça a sua força, que assuma as suas convicções, que se defenda de todos os que, por egoístas razões, ou por mera competitividade a não querem, que saiba criar os indispensáveis mecanismos de entreajuda, que seja, em última análise, o reflexo de uma sólida vontade colectiva, a dos europeus, que, apesar das dificuldades, continuam a acreditar na Europa como parte integrante das suas expectativas de amanhã.

 

Nicolau Santos, economista sério e de insuspeita reputação, na edição do “Expresso” da semana passada e no caderno de economia, sob o título “A Europa cega pelo medo”, refere a dado momento: “Mas o mais dramático é que os dirigentes europeus mostram que não compreendem a absoluta necessidade da solidariedade interestados indispensável ao bom funcionamento da união monetária (que, nos Estados Unidos leva a que, por exemplo, quando o Texas está em recessão diminua automaticamente a sua contribuição para o orçamento federal e aumente a transferência de fundos de outros estados). E sem isso, os dirigentes europeus estão a criar as bases para fazer explodir os nacionalismos e levar à implosão do euro – e talvez da própria União Europeia”.

 

Sem dramatismos, subscrevo a análise e, com a devida vénia, transcrevo o excerto acima, convencido como estou de que os europeístas convictos o farão também, alinhando com Mário Soares (sempre lúcido e perspicaz no entendimento que tem e fortalece sobre estas, como sobre outras matérias de interesse político), entre outros, na defesa de uma Europa que se assuma federalista, sem receios dos fantasmas que o conceito, o modelo e a decisão sempre arrastam e militem na necessidade de um reforço da política na Europa, das decisões políticas na Europa, na existência, defesa e eleição de líderes apostados na Europa e no seu prestígio no concerto das nações.

 

A Europa, a União Europeia, precisa de ideias, de empenhamento, de determinação, de coragem e duma visão de futuro.

 

Não se resolve esta crise, se não formos, nós europeus, capazes de antecipar e evitar as crises que o futuro, a continuarem as coisas como estão, inevitavelmente trará.    

 

publicado por nuncaexausto às 16:48

Junho 18 2010

A VERMELHO 

 

 

 

 

 

Como resposta, responsável, ao agravamento do défice das contas públicas e ao perigoso agravamento da dívida soberana, com todo o cortejo de dramáticas consequências de todos nós já bem conhecidas, o governo decidiu, e bem – penso até que se justificaria algo de mais consistente e duradouro – acordar com o maior partido da oposição a adopção de um conjunto de medidas de austeridade e rigor que, sem o apoio de uma maioria parlamentar capaz, estaria inelutavelmente condenado ao insucesso.

 

O maior partido da oposição, o PSD – o mesmo que aceitou a co-responsabilização respectiva no aumento de impostos, nos cortes sociais, na redução de algumas, outras, despesas, e em tudo o que, de uma forma ou de outra, agrava as condições de vida da maioria de nós, portugueses – que havia, juntamente com o BE (Bloco de Esquerda), proposto a criação de uma Comissão de Inquérito para apurar se o PM havia, ou não, mentido a propósito do negócio da compra da TVI pela PT, revela agora, segundo ouvi, que vai votar favoravelmente o relatório final da Comissão elaborado por um deputado do BE.

 

O relatório, que não confirma a alegada mentira, insinua que ela existiu sem sentir necessidade de a provar (à mentira) e põe toda a oposição a votar contra o governo e o PM.

 

As comissões de inquérito levam, com a aprovação deste documento, uma rude machadada na sua dignidade e importância política e, mais uma vez, atingem a democracia onde ela carece de mais protecção: na sua visibilidade, no seu prestígio e no modo como os cidadãos a elegem, permanentemente, como referencial de estabilidade e participação cívica.

 

Mas o curioso é pensarmos na situação com que o PS está confrontado e, por seu intermédio, o País. O partido que, aparentemente, colabora com o governo do PS para ajudar, dizem eles, a resolver os problemas financeiros de Portugal, é o mesmo que fustiga politicamente o governo e o PS, aliando-se, episodicamente, ao BE (responsável pelo relatório anti-governo e anti-PS) que, ironicamente, apoia o mesmo candidato presidencial que o Partido Socialista.

 

Alguma coisa está mal. Muito mal!

Alguém consegue perceber o que tudo isto quer dizer?

 

 

Eu, inclino-me a pensar que é urgente – no PS e fora dele – clarificar tudo o que seja necessário clarificar para garantir alguma coerência e eficácia na abordagem dos problemas que são realmente importantes para Portugal e para os portugueses.

 

Sei que não é a melhor altura para cuidar desse futuro de oxigenação e esperança; mas se não houver ponderação, temo que não haja lugar para a esperança e para o futuro.

publicado por nuncaexausto às 18:12

Junho 07 2010

A VERMELHO 

 

 

 

Com uma votação de braço no ar, no seu órgão máximo entre congressos, o PS, elegendo Manuel Alegre como candidato a apoiar para a presidência da república, de entre “a espada e a parede” escolheu a parede.

 

De acordo com os dados da Comissão Nacional de Eleições respeitantes às eleições legislativas, de 2005 para 2009 o PS perdeu 511074 votos. Em 2009 o BE teve um acréscimo eleitoral de 192335 (passou de 364971 em 2005 para 557306 em 2009) votos. Acredito, por razões entendíveis, que o grosso desta variação positiva na votação do Bloco de Esquerda corresponda a uma parte significativa dos votos perdidos pelo Partido Socialista.

 

Por muitas razões, que não vem a propósito desenvolver neste momento, mas de entre as quais sobressai o natural desgaste do governo ao fim de quatro anos e meio de governação, era previsível a quebra de popularidade do PS. À direita e à esquerda, foi possível capitalizar os vários descontentamentos e fazê-los reflectir nos resultados eleitorais e, em consequência e sem surpresa, o partido do governo perdeu a maioria absoluta.

 

Tudo democrático, tudo normal, tudo aceitável.

 

Já o não é tanto o facto de um destacado militante do partido do governo, Manuel Alegre, ter contribuído fortemente para que tal tivesse acontecido. Num percurso de mais de quatro anos de todos conhecido, Manuel Alegre teve o cuidado de, indecorosa e persistentemente, se colocar ao lado dos adversários do seu Partido e de, em momentos-chave (particularmente nas eleições presidenciais, em que se candidatou contra Mário Soares e, portanto, contra o Partido Socialista) ter tomado decisões que chocavam de frente com os objectivos, prioridades e desafios do Partido, acentuando um egoísmo a todos os títulos censurável e de funestas consequências para o País, para a esquerda e, para o PS, como ficou patente face aos resultados eleitorais por este obtidos.  

 

Mas Manuel Alegre não foi, só, o protagonista de uma candidatura presidencial contra o PS, o Partido de que é militante. Não. Manuel Alegre foi, também, como se viu, o grande impulsionador da imagem do BE e o seu elemento mais credibilizador na incansável cruzada contra o governo de que Alegre deveria ter sido um dos mais ouvidos e respeitados defensores.

 

Como se nada disto tivesse acontecido, cedo, muito cedo, anunciou a sua recandidatura a Belém e passou, mais uma vez, a condicionar a vida do PS, a estratégia do PS, as opções do PS, as decisões do PS, os interesses do PS e, em consequência tudo o que o PS pensa para Portugal e para o seu futuro.

 

Sem conseguir sair desta armadilha, o Partido Socialista foi adiando o inevitável – aparentemente inevitável – e, desrespeitando uma regra estatutária que o identificava e prestigiava, a da escolha de pessoas, apenas e só, por voto secreto, termina, declarando o seu apoio resignado ao candidato que se lhe impôs.  

 

Não gostei. Não gosto. Dificilmente aceitarei estes procedimentos – conheço-os e sofri-lhes as consequências, com outra dimensão, embora – e, menos ainda, desfechos como aquele que vem sendo citado precipitou.

 

 

A atitude de Manuel Alegre e a reacção do PS não ajudam a clarificar. Não acrescentam valor à imagem de uma democracia cansada e desgastada aos olhos dos cidadãos. Não reabilitam, nem ajudam, a política, os políticos e as suas práticas. Não antecipam, nem marcam, o futuro. Consagram a rotina no que ela tem de mais perverso. Foi um mau passo. Espero que não seja uma condenação.

publicado por nuncaexausto às 23:54

Junho 05 2010

PERGUNTA OCASIONAL

 

 

 

 

 

Pinto de Sousa e mais uns, não sei quantos, arguidos terminais do terminal processo apito dourado, foram, um dia destes, absolvidos em primeira instância.

 

´

É o culminar – ou deveria ser – de um percurso e de um extra-mediático processo de que a Justiça, se o fosse, e decente, se não deveria orgulhar.

 

 Investigações, acusações, anos de suspeições, aberturas, arquivamentos e reaberturas de processos, julgamentos, adiamentos das sessões, violações do “segredo de justiça”, protagonismos vários e vaidosos e, sempre, recursos inconsequentes por parte do ministério público, constituem o retrato de uma sinistra saga tendente a incriminar cidadãos que muitos, com mau perder, gostariam de ver punidos a todo o custo para poderem, assim, saciar o seu desejo de vingança a que, invejosos, cederam com capricho.

 

O PGR determinou mesmo, pasme-se, que se recorresse, em todas as circunstâncias, se o veredicto não correspondesse à vontade dos acusadores – disse, vontade. Não disse, sentimento de justiça.

 

Chegados aqui. A absolvição dos arguidos foi total, os recursos foram perdidos e a humilhação do MP incontornável. Assim o não entendem estes senhores e, da decisão que absolveu os últimos arguidos deste caso, vai voltar a ser apresentado recurso para os tribunais superiores.

 

É desta forma, também, que se atulham os tribunais com processos, que se contribui para a morosidade da justiça, que se encarece o Serviço e o seu funcionamento, que se descredibiliza o sector e que, em suma, se ridiculariza a actividade.

 

Mas, para além do que é óbvio para o vulgar cidadão, há a considerar a nossa contribuição para tudo isto.

 

Nós pagamos. É verdade. E nós pagamos!

 

Que poderosas razões, ou não, estarão por detrás de tudo isto?

 

publicado por nuncaexausto às 11:40

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