A VERMELHO
Depois de umas dezenas de textos que fui escrevendo, com o objectivo único de, tal como sempre afirmei, desabafar, resolvi interromper a prática, então já rotineira, por ter o sentimento de que, falar só, está longe de ser saudável. Fiz bem. Mas podemos sempre ter uma “recaída”: é o caso.
O mundo anda, há mais de três anos, a tentar fazer a gestão de uma crise profunda, de contornos ainda não completamente definidos e, se possível, a ensaiar a melhor forma de dela sair, num quadro em que as circunstâncias permitam, impedindo, assim, as trágicas consequências do seu prolongamento, da sua indefinição, do seu alcance, da sua duração e da sua intensidade.
Não interessa agora, – não me interessa agora –, voltar ao que todos sabemos: como começou, quem a precipitou, os comentários que suscitou, as decisões que, em consequência, postulou, – “É urgente mudar de paradigma” –, as energias que, parecia, entretanto, tinham sido estimuladas, a lucidez reinventada, a coragem reassumida e a vontade de contrariar o pré-escrito futuro.
Enrodilhados numa mais que discutível lógica de poder – de poderes – e de interesses, em que avulta o dos “mercados” e dos seus cúmplices – sim, todos aqueles que tudo fazem para que sejam eles, os mercados, os únicos a não perderem nada com as dificuldades instaladas cujos contornos eles próprios definiram – tornamo-nos incapazes de perceber o que, verdadeiramente, compete a cada um. Os discursos são todos semelhantes, as receitas são todas parecidas, todos fogem da incomodidade da análise política e ideológica sobre a situação a que chegamos, todos veneram os “mercados” e as suas extravagantes exigências, todos se renderam, ou parece, ao peso de quem (ainda) manda e, por isso, decide em nome, e a favor, dos interesses privados e não, como era desejável, dos que encontram a sua legitimidade nas pessoas, nas suas necessidades, nos seus anseios, nas suas aspirações e na sua eterna esperança num melhor, e mais promissor, futuro.
A direita e a esquerda confundem-se. A primeira, protagonista quase exclusiva destes tempos de incerteza e temor, alojou-se no silêncio da segunda, e a segunda, com clara dificuldade de afirmação, deixa, à primeira, o caminho aberto à livre expressão do seu mais desenfreado neo-liberalismo económico e da sua recatada, e hipócrita, postura cúmplice na destruição de tudo aquilo que a civilização, a modernidade, a seriedade e um são entendimento das sociedade modernas, havia construído para as pessoas, em seu nome e em nome dum devir, que todos esperam, seja o da paz, do desenvolvimento, da justiça, da liberdade e da democracia.
O silêncio da esquerda, na sua dimensão mais europeia e internacional, não existe. Perdeu-se nos seus combates domésticos. A Internacional Socialista não tem opinião sobre a crise internacional? Sobre a globalização e as suas consequências? Sobre as “revoluções democráticas” no mundo árabe e no Mediterrâneo? Sobre os inúmeros conflitos regionais de consequências, potenciais, graves? Sobre as dívidas soberanas e a, chamada, crise do euro? – Parece que não. Que não tem. E, se tem… não se ouve. E é pena!
E o Partido Socialista Europeu? Que é feito dele? – No coração do “drama” preocupa-se com quê? Com os eurocráticos dossiers que tem em mãos? São decisivos para a solução dos complexos problemas com que nos confrontamos? Não há uma ideia de conjunto? Um quadro de reflexão desta área de pensamento? Um conjunto de ideias alternativo?
Bom. De acordo com as sondagens, em 2012 o PSF pode ganhar as eleições em França e o SPD pode ganhar as eleições na Alemanha. A esquerda pode, assim, regressar ao poder nos dois mais importantes, e economicamente mais representativos, países da União Europeia.
Será que, ainda que seja em tempo útil que tal aconteça, poderemos alimentar a esperança de que algo seja diferente no próximo futuro? – Temo que não! E nós merecíamos mais da esquerda democrática e do que ela representa para várias gerações de europeus.
Funchal, 11 de Dezembro de 2011
Mota Torres